Prelo e Película

por Sérgio Cortêz

“O Carteiro e o Poeta”

Nossa chegada ao site Cinema Com Poesia não poderia ser mais encantadora: como a magia de um primeiro encontro, trataremos de “O Carteiro e o Poeta”, romance de Antonio Skármeta que deu origem ao filme homônimo, lançado em 1994.

Mas antes de mergulharmos na acolhedora amizade entre o poeta Pablo Neruda e seu carteiro, voltemos no tempo para recordar o trabalho de Antonio Skártema como cineasta: sim, além de escritor, o célebre autor dirigiu, roteirizou e até atuou no filme “Ardiente Paciencia”, de 1983.

  • O Filme Original

O título original é baseado na fala de Neruda ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1971, quando o poeta citou Arthur Rimbaud: “Só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens”. Estrelado por Roberto Parada, Óscar Castro e Marcela Osorio, “Ardiente Paciencia” nos apresenta a passagem de Pablo Neruda por Isla Negra, paragem na qual vive seu tempo derradeiro e onde desenvolve uma divertida relação de amizade com o carteiro local.

  • O Livro
Edição brasileira do livro “O Carteiro e o Poeta”

Em 1985, dois anos após o lançamento do filme, “Ardiente Paciência” chegou às livrarias, tornando-se um romance bastante popular (o livro é ainda publicado, porém com o título “El Cartero De Neruda”). A premissa manteve-se a mesma: Mario Jiménez, carteiro em Isla Negra, tem como principal trabalho entregar a correspondência do ilustre Pablo Neruda, cujo volume de cartas se destaca em comparação às pouquíssimas missivas recebidas pelos locais. Encantado com as palavras do poeta, Mario Jiménez pede sua ajuda para aprender metáforas românticas que possam lhe ser úteis na conquista de sua amada, Beatriz González. Todavia, é a amizade estabelecida entre Jiménez e Neruda – que perdura até os momentos finais da vida do poeta – o foco principal dessa bela história.

Marcado pelo bom humor e por uma narrativa sutilmente jornalística, “Ardiente Paciencia” é, basicamente, uma homenagem ao poeta mais aclamado do Chile. Como pano de fundo, o momento político conturbado vivido no país no início da década de 1970, desde a eleição de Salvador Allende até a morte do presidente durante o golpe de Estado protagonizado por Augusto Pinochet.

  • O Filme Que Não é Igual Ao Livro

No Brasil, o livro tornou-se conhecido a partir do lançamento do filme “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino), película belgo-franco-italiana que trazia em seu elenco Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinotta e Philippe Noiret. A principal diferença entre a versão de 1994 e o filme original de 1983 é que a história se passa na Itália dos anos 1950 e não em Isla Negra, como é mostrado também no livro. Mas isso não desabona a versão mais recente, que concorreu ao Oscar em cinco categorias, faturando a de Melhor Trilha Sonora (Luis Bacalov).

Cena de “O Carteiro e o Poeta” (1994), com os atores Philippe Noiret (Pablo Neruda) e Massimo Troise (o carteiro Ruoppolo).

Para Isabela Zamboni, jornalista e especialista em Língua Portuguesa e Literatura, “Poucos livros conseguem oferecer uma experiência de leitura tão prazerosa como ‘O Carteiro e o Poeta’”.

  •  Revisitando Pablo Neruda

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, Pablo Neruda dedicou sua vida à poesia e à diplomacia. Ocupou diferentes posições como representante do Governo Chileno, chegando a tornar-se senador pelo Partido Comunista do Chile. Por conta de seu posicionamento ideológico, sofreu perseguições de natureza política e chegou mesmo a exilar-se. Aclamado pela crítica e por leitores não apenas no Chile, as obras de Pablo Neruda tornaram-se conhecidas em quase todo o mundo. Para o não menos respeitado romancista colombiano Gabriel García Márquez, Pablo Neruda foi “o maior poeta do século XX em qualquer língua”.

Para celebrar a memória de Pablo Neruda, a coluna Prelo e Película apresenta aos visitantes duas de suas obras: “Soneto LXVI”, na qual podemos apreciar o seu conhecido viés romântico, e “O Monte e o Rio”, onde constata-se o lado inquieto e contestador do poeta. Com a palavra, Pablo Neruda.

Soneto LXVI

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.

*

O Monte e o Rio

Na minha pátria tem um monte.

Na minha pátria tem um rio.

Vem comigo.

A noite sobe ao monte.

A fome desce ao rio.

Vem comigo.

E quem são os que sofrem?

Não sei, porém são meus.

Vem comigo.

Não sei, porém me chamam

e nem dizem: “Sofremos”

Vem comigo

E me dizem:

“Teu povo,

teu povo abandonado

entre o monte e o rio,

com dores e com fome,

não quer lutar sozinho,

te está esperando, amigo.”

Ó tu, a quem eu amo,

pequena, grão vermelho

de trigo,

a luta será dura,

a vida será dura,

mas tu virás comigo.

*

Dicas da Coluna – Onde Encontrar:

– Livro “O Carteiro e o Poeta” – onde comprar:

https://bit.ly/3vOOQ5H

– História de Pablo Neruda: “Confesso Que Vivi” – onde comprar:

https://redir.lomadee.com/v2/2998d0d64af

*

Visite o Beco da Poesia e conheça o trabalho literário de Sérgio Cortêz.

Acesse: https://bit.ly/2Zyd1cp

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